Num mundo em 3d, pegue a quina branca entre três paredes brancas, dirija sua visão para baixo. Observe. Uma tevê, uma mesa cheia de quadrinhos que não deveriam estar ali, uma mesa, um computador. Olhe pra pessoa sentada na cadeira. Essa pessoa brigou na faculdade por saber demais. Brigou no trabalho por intolerar ridículos jogos de poder. Ele quer expressar isso. Quer expressar a tristeza diante da fria tela azul de site de relacionamento – ele observa a ironia de estar tão só em meio a 269 figuras rotuladas. No msn, as mulheres ouvem boa sorte numa proporção que lhe causam úlceras- Enfrentam a solidão com o sarcasmo dos derrotados. Já voltando à pessoa que está sentada, percebe-se que ele tem uma mania estranha de fazer os outros menos sozinhos, ou menos tristes, e que ele e o palhaço sentado riscando no chão três horas antes do espetáculo começar são muito parecidos: O palhaço levanta-se, pinta seu rosto, vai pro picadeiro, e se sente tão menos feio que queria viver a vida no momento do espetáculo. Dentro daquela sala cheia de coisas anti-tristezas, aquela pessoa começa a teclar coisas – a riscar o chão, espera o próximo espetáculo, mesmo que volte ao ponto zero, mesmo que volte à mesma cadeira, querendo, querendo muito alguém que lhe peça pra continuar seu show , assim, se rindo, ficando tudo assim, tão menos sem propósito, tão menos sozinho, por um pouco mais.
