já me preparo pra chamar por alguém, visto que nunca há alguém para mim, e no portão há um homem. Pergunto o que há: ele vende vassoura, não que tenha me oferecido alguma, mas sim porque eu as vi, escorada em sua costa. Na verdade ele me pediu algo pra comer. Trouxe-lhe umas bananas, um pão, cheguei perto. O homem recebeu, meio na defensiva, meio cansado: “difícil manter uma família desse jeito”. Ia abrindo a banana apressado, falando com a boca cheia, daí pergunto de onde vem: “da zona norte”, é muito longe. Lamentava porque um homem parou seu carro e ia comprar várias vassouras, mas não tinha troco pra vinte: o artesão correu, procurou onde trocasse o dinheiro, acabou não vendendo nada. A segunda banana já ia pra dentro, enquanto falava das vezes que queria vender ao menos algo, pra poder voltar pra casa. Ele falou do filho que chorava. Penso na frustração de acordar com a perspectiva de fazer algumas vassouras com material fiado, sair, ir longe, vender uma ou outra, voltar, e a noite chega, pra clarear tudo outra vez, e fazer tudo de novo.
Dei-lhe água, um saco de feijão cru, comprei uns espanadores que nem vou usar, tudo isso pela verdade que vi em seu olho, e pela vergonha de, por um momento, quando a campainha tocou, ter praguejado por ter me acordado.
Andei rascunhando coisas, pondo em prática outras idéias; sempre senti um algo faltando, que não fazia o suficiente. Penso em fazer algo pelo homem da vassoura, à todos eles.

