reguladora do pisca-pisca do seu olho o trai. E ainda assim, você o faz. A partir daí, entra em ação a maior vitória das táticas mapulacionais da história: o acordar.
Você escova os dentes, da mesma forma que fizera há sete horas, quando mantinha a fé de que acordaria vivo logo em breve. Veste-se, penteia o cabelo. A tática grita.
Caminha. Sente estranho, como se suas pernas fizessem algo antes que sua vontade as dissesse. No sopé da porta, estaciona. Encara a lâmina que antes vestia um ser de pelo menos cem anos de solidão desdenhadora, equilibrada, era, ponto, não havia o que explicar. Essa lamina, hoje, nada mais é do que- não é; Um não-lugar amorfo, uma imagem falsa de dentro/fora: um não.
O ato de sair se transmuta em uma interrogação tão grande e tão absurdamente complexa que lhe trava. O dentro nunca foi tão fora, e o fora parece que comeu demais. Sair de casa é o ato mais sem sentido já inventado por essa massa de macacos vestidos: sair de casa é, definitivamente o ato de procurar problemas; é dizer esse risco é meu, porque eu me movo e consigo e posso, e amanhã eu pisarei naquele carpete marrom e os resolverei, todos, ao mesmo tempo que os laçarei de volta e os alimentarei como porcos gordos.
Sair é resolver/procurar problemas. Tem fome? Saia. Dinheiro? Saia. Sexo? Saia. Mesmo que todos venham até você, houve o movimento, houve o mover-se. Estacado diante da porta lhe cai um grande e secreto significado sobre a vida: Viver é uma eterna transferência de problemas; um eterno ciclo de movimento de problemas e soluções amagalmizados para se parecerem distantes – inventaram até nomes diferentes para cada – e então percebe que sua perna que ia feliz para cima do carpete, faz parte de uma enorme conspiração contra – contra o quê? Ainda não sabe. Descubre-se diante de um fractal ridículo do universo se mexendo aleatoreamente e feliz por ser algo consciente e livre. O fora/dentro lhe traiu, sua perna lhe traiu, e sorri com um olhar triste, ao concluir que mesmo sabendo que está saindo de casa para resolver seus problemas – e criar outros para resolvê-los no dia seguinte, conclui que nunca resolveu nem resolverá nada em todo resto de existência que ainda lhe resta. Agora são nove e quarenta e três, olha para sua cama, olha para o fora, todos lhe deixaram: pernas, braços, olhos. Então pára. Pára.
