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Nesse exato momento um homem é preso

21 outubro, 2007

e seu dentista, que estava marcado para amanhã, vai encaixar outro paciente. Nesse exato momento um espermatozóide ganha uma corrida e um menino de nome João Francisco das Chagas vai nascer, vai virar tenente da polícia e dar um tiro num outro menino que nem nasceu ainda, pensando que ele é bandido. Agora mesmo um inseto deixou escapar um pólen de pé de maracujá a dez metros da planta. Essa semente vai germinar e dela vai sair um maracujá que será vendido na feira aos berros pela dona Júlia. Agora mesmo uma menina encontra um rapaz no ônibus e imagina ele como sendo dela, o homem ais perfeito dentre todos, ao mesmo tempo em que o cobrador desse mesmo ônibus não vê a hora de terminar sua última viagem e chegar em casa, porque hoje, de acordo com a tabela da mulher, eles podem transar à vontade. O ônibus onde isso tudo acontece se encontra passando em frente a uma casa de uma vidente, onde uma mulher bem ornada faz revelações bombásticas sobre o marido de sua cliente, morto há anos. Um homem ri de alguma piada maldosa. A menina vê o pai de jeito estranho. Um padeiro espirra na fornada. A caneta falha. Nesse exato momento um homem em meio a uma reunião sente uma dor tão impossivelmente poética, que nada nesse planeta vai convencer seus colegas da existência de tal coisa, caso ele viesse a quebrar a sala ou pular da janela ou chorar, copiosamente.

Me pego pensando o quanto o mundo vai girar

5 outubro, 2007

e não vejo quando voltará o dia que será eterno de novo. Alguns, mesmo que poucos, coisas assim, como daquela vez que persegui um beija-flor pelo jardim da universidade, ou aquela atividade que passei horas produzindo pros meus alunos e eles a fizeram tão bem, tão bonitos – as pessoinhas sentadas, falando um idioma que não é o deles, aprendendo. Ensinar é eternizar nada para outro. Reencontrar algo grande, como a água fria do mar subindo pelo seus pés, introduzindo você a você mesmo. Reencontrar-se, reencontrar alguém. Passar o guardanapo na boca da pessoa quando ela sujar de sorvete.

“…ela entrou no carro e fez uma careta assim, ó.”*