Archive for abril \25\UTC 2008

palhaço

25 abril, 2008

Num mundo em 3d, pegue a quina branca entre três paredes brancas, dirija sua visão para baixo. Observe. Uma tevê, uma mesa cheia de quadrinhos que não deveriam estar ali, uma mesa, um computador. Olhe pra pessoa sentada na cadeira. Essa pessoa brigou na faculdade por saber demais. Brigou no trabalho por intolerar ridículos jogos de poder. Ele quer expressar isso. Quer expressar a tristeza diante da fria tela azul de site de relacionamento – ele observa a ironia de estar tão só em meio a 269 figuras rotuladas. No msn, as mulheres ouvem boa sorte numa proporção que lhe causam úlceras- Enfrentam a solidão com o sarcasmo dos derrotados. Já voltando à pessoa que está sentada, percebe-se que ele tem uma mania estranha de fazer os outros menos sozinhos, ou menos tristes, e que ele e o palhaço sentado riscando no chão três horas antes do espetáculo começar são muito parecidos: O palhaço levanta-se, pinta seu rosto, vai pro picadeiro, e se sente tão menos feio que queria viver a vida no momento do espetáculo. Dentro daquela sala cheia de coisas anti-tristezas, aquela pessoa começa a teclar coisas – a riscar o chão, espera o próximo espetáculo, mesmo que volte ao ponto zero, mesmo que volte à mesma cadeira, querendo, querendo muito alguém que lhe peça pra continuar seu show , assim, se rindo, ficando tudo assim, tão menos sem propósito, tão menos sozinho, por um pouco mais.

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momento Cabreirus

19 abril, 2008

Lembro da época em que fazia o curso de matemática e que Já tranquei disciplina por não conseguir acompanhar, porque eu queria entender as coisas. Eram horas de biblioteca e colegas trocando ajudas em inglês por expliações de álgebra. Hoje tomei bomba numa prova porque sabia mais que a professora. Não, ela não ensina álgebra, mas uma matéria que há 11 anos  venho aprendendo, que é metodologia de ensino. Ela me deu 5 pontos por não saber um método moderno* de EFL teaching que usei na prova. Quer dizer, eu sabendo menos, tirava mais nota do que hoje, olha só que país de banguelas. Ela disse que ia olhar a prova de novo, e eu fiquei de levar um material falando sobre o método que usei na prova,  esse aqui, exatamente, que não existe. Ou talvez eu leve esse? Tô parecendo arrogante? me dei conta que desde o ano passado nem os professores de literatura nem os de linguística deveriam estar no lugar onde estão, e que pelo menos no curso de matemática eu tomava bomba pelos motivos certos.

*leia-se uns 10 anos já.

exatamente

19 abril, 2008

A nova era do cinismo, em que somos todos iguais, homens e mulheres, e agora elas fazem as mesmas merdas que nós.

A MENINA DO VESTIDO AZUL

10 abril, 2008

_Oi!_
_ Oi!_ respondo à sorridente menina numa sessão de higiene pessoal de um supermercado. E, enquanto pego alguns sabonetes, observo aquela menininha que não parece ter mais do que 4 anos segurando um monte de pastas-de-dente, escovas e shampoos. É engraçado ver os produtos caindo e caindo enquanto ela se abaixa para pegá-los. Ela vê que eu estou observando e, como que se explicando pela situação, diz:
_Estou fazendo compras!_ e deixa cair outro sabonete. Eu pego dessa vez.
_heheh. Que bom. Cadê sua mãe?_ eu, sorrindo, pergunto, ao mesmo tempo que entrego o sabonete.
_ heheh. Vou botar no meu carrinho!_ Sem me responder, ela sai. É muito fofa, com seu vestidinho azul, cheio de bonequinhos estampados.

Essa menina tem um sorriso carismático, que fisga a pessoa. Mas eu vejo que ali se esconde uma tristeza enorme, sabe, como em segundo plano; Como alguém que já sofreu muito em tão pouco tempo de vida. Ao vê-la sumindo na multidão, lembro que tenho as minhas compras a fazer e volto aos sabonetes.

Algum tempo depois, já no caixa, eu volto a ver a menininha de vestido. Ela está com seu carrinho, parada. Um homem vem ao seu encontro e a pega pela mão. Mas esse homem é um funcionário do supermercado. Vejo que a mulher do caixa também acompanha a situação e me atrevo a perguntar:
_ Você conhece aquela menina?

A mulher volta-se para mim, com uma expressão de tristeza .

_ Sua mãe a deixou aqui há mais de um ano. Está sendo criada por um parente. Ela vem aqui quase todos os dias, na esperança de achar a mãe e voltar pra casa com suas compras.

Dezembro, 2003