Archive for julho \29\UTC 2008

Depois que a campainha toca,

29 julho, 2008

já me preparo pra chamar por alguém, visto que nunca há alguém para mim, e no portão há um homem. Pergunto o que há: ele vende vassoura, não que tenha me oferecido alguma, mas sim porque eu as vi, escorada em sua costa. Na verdade ele me pediu algo pra comer. Trouxe-lhe umas bananas, um pão, cheguei perto. O homem recebeu, meio na defensiva, meio cansado: “difícil manter uma família desse jeito”. Ia abrindo a banana apressado, falando com a boca cheia, daí pergunto de onde vem: “da zona norte”, é muito longe. Lamentava porque um homem parou seu carro e ia comprar várias vassouras, mas não tinha troco pra vinte: o artesão correu, procurou onde trocasse o dinheiro, acabou não vendendo nada. A segunda banana já ia pra dentro, enquanto falava das vezes que queria vender ao menos algo, pra poder voltar pra casa. Ele falou do filho que chorava. Penso na frustração de acordar com a perspectiva de fazer algumas vassouras com material fiado, sair, ir longe, vender uma ou outra, voltar, e a noite chega, pra clarear tudo outra vez, e fazer tudo de novo.

Dei-lhe água, um saco de feijão cru, comprei uns espanadores que nem vou usar, tudo isso pela verdade que vi em seu olho, e pela vergonha de, por um momento, quando a campainha tocou, ter praguejado por ter me acordado.

Andei rascunhando coisas, pondo em prática outras idéias; sempre senti um algo faltando, que não fazia o suficiente. Penso em fazer algo pelo homem da vassoura, à todos eles.

Anúncios

24 julho, 2008

by Fran

12 julho, 2008

ser

ou não-ser.

Seus olhos o traem. A pele

11 julho, 2008

reguladora do pisca-pisca do seu olho o trai. E ainda assim, você o faz. A partir daí, entra em ação a maior vitória das táticas mapulacionais da história: o acordar.

Você escova os dentes, da mesma forma que fizera há sete horas, quando mantinha a fé de que acordaria vivo logo em breve. Veste-se, penteia o cabelo. A tática grita.

Caminha. Sente estranho, como se suas pernas fizessem algo antes que sua vontade as dissesse. No sopé da porta, estaciona. Encara a lâmina que antes vestia um ser de pelo menos cem anos de solidão desdenhadora, equilibrada, era, ponto, não havia o que explicar. Essa lamina, hoje, nada mais é do que- não é; Um não-lugar amorfo, uma imagem falsa de dentro/fora: um não.

O ato de sair se transmuta em uma interrogação tão grande e tão absurdamente complexa que lhe trava. O dentro nunca foi tão fora, e o fora parece que comeu demais. Sair de casa é o ato mais sem sentido já inventado por essa massa de macacos vestidos: sair de casa é, definitivamente o ato de procurar problemas; é dizer esse risco é meu, porque eu me movo e consigo e posso, e amanhã eu pisarei naquele carpete marrom e os resolverei, todos, ao mesmo tempo que os laçarei de volta e os alimentarei como porcos gordos.

Sair é resolver/procurar problemas. Tem fome? Saia. Dinheiro? Saia. Sexo? Saia. Mesmo que todos venham até você, houve o movimento, houve o mover-se. Estacado diante da porta lhe cai um grande e secreto significado sobre a vida: Viver é uma eterna transferência de problemas; um eterno ciclo de movimento de problemas e soluções amagalmizados para se parecerem distantes – inventaram até nomes diferentes para cada – e então percebe que sua perna que ia feliz para cima do carpete, faz parte de uma enorme conspiração contra – contra o quê? Ainda não sabe. Descubre-se diante de um fractal ridículo do universo se mexendo aleatoreamente e feliz por ser algo consciente e livre. O fora/dentro lhe traiu, sua perna lhe traiu, e sorri com um olhar triste, ao concluir que mesmo sabendo que está saindo de casa para resolver seus problemas – e criar outros para resolvê-los no dia seguinte, conclui que nunca resolveu nem resolverá nada em todo resto de existência que ainda lhe resta. Agora são nove e quarenta e três, olha para sua cama, olha para o fora, todos lhe deixaram: pernas, braços, olhos. Então pára. Pára.