Archive for the ‘contos’ Category

Seus olhos o traem. A pele

11 julho, 2008

reguladora do pisca-pisca do seu olho o trai. E ainda assim, você o faz. A partir daí, entra em ação a maior vitória das táticas mapulacionais da história: o acordar.

Você escova os dentes, da mesma forma que fizera há sete horas, quando mantinha a fé de que acordaria vivo logo em breve. Veste-se, penteia o cabelo. A tática grita.

Caminha. Sente estranho, como se suas pernas fizessem algo antes que sua vontade as dissesse. No sopé da porta, estaciona. Encara a lâmina que antes vestia um ser de pelo menos cem anos de solidão desdenhadora, equilibrada, era, ponto, não havia o que explicar. Essa lamina, hoje, nada mais é do que- não é; Um não-lugar amorfo, uma imagem falsa de dentro/fora: um não.

O ato de sair se transmuta em uma interrogação tão grande e tão absurdamente complexa que lhe trava. O dentro nunca foi tão fora, e o fora parece que comeu demais. Sair de casa é o ato mais sem sentido já inventado por essa massa de macacos vestidos: sair de casa é, definitivamente o ato de procurar problemas; é dizer esse risco é meu, porque eu me movo e consigo e posso, e amanhã eu pisarei naquele carpete marrom e os resolverei, todos, ao mesmo tempo que os laçarei de volta e os alimentarei como porcos gordos.

Sair é resolver/procurar problemas. Tem fome? Saia. Dinheiro? Saia. Sexo? Saia. Mesmo que todos venham até você, houve o movimento, houve o mover-se. Estacado diante da porta lhe cai um grande e secreto significado sobre a vida: Viver é uma eterna transferência de problemas; um eterno ciclo de movimento de problemas e soluções amagalmizados para se parecerem distantes – inventaram até nomes diferentes para cada – e então percebe que sua perna que ia feliz para cima do carpete, faz parte de uma enorme conspiração contra – contra o quê? Ainda não sabe. Descubre-se diante de um fractal ridículo do universo se mexendo aleatoreamente e feliz por ser algo consciente e livre. O fora/dentro lhe traiu, sua perna lhe traiu, e sorri com um olhar triste, ao concluir que mesmo sabendo que está saindo de casa para resolver seus problemas – e criar outros para resolvê-los no dia seguinte, conclui que nunca resolveu nem resolverá nada em todo resto de existência que ainda lhe resta. Agora são nove e quarenta e três, olha para sua cama, olha para o fora, todos lhe deixaram: pernas, braços, olhos. Então pára. Pára.

A MENINA DO VESTIDO AZUL

10 abril, 2008

_Oi!_
_ Oi!_ respondo à sorridente menina numa sessão de higiene pessoal de um supermercado. E, enquanto pego alguns sabonetes, observo aquela menininha que não parece ter mais do que 4 anos segurando um monte de pastas-de-dente, escovas e shampoos. É engraçado ver os produtos caindo e caindo enquanto ela se abaixa para pegá-los. Ela vê que eu estou observando e, como que se explicando pela situação, diz:
_Estou fazendo compras!_ e deixa cair outro sabonete. Eu pego dessa vez.
_heheh. Que bom. Cadê sua mãe?_ eu, sorrindo, pergunto, ao mesmo tempo que entrego o sabonete.
_ heheh. Vou botar no meu carrinho!_ Sem me responder, ela sai. É muito fofa, com seu vestidinho azul, cheio de bonequinhos estampados.

Essa menina tem um sorriso carismático, que fisga a pessoa. Mas eu vejo que ali se esconde uma tristeza enorme, sabe, como em segundo plano; Como alguém que já sofreu muito em tão pouco tempo de vida. Ao vê-la sumindo na multidão, lembro que tenho as minhas compras a fazer e volto aos sabonetes.

Algum tempo depois, já no caixa, eu volto a ver a menininha de vestido. Ela está com seu carrinho, parada. Um homem vem ao seu encontro e a pega pela mão. Mas esse homem é um funcionário do supermercado. Vejo que a mulher do caixa também acompanha a situação e me atrevo a perguntar:
_ Você conhece aquela menina?

A mulher volta-se para mim, com uma expressão de tristeza .

_ Sua mãe a deixou aqui há mais de um ano. Está sendo criada por um parente. Ela vem aqui quase todos os dias, na esperança de achar a mãe e voltar pra casa com suas compras.

Dezembro, 2003

Nesse exato momento um homem é preso

21 outubro, 2007

e seu dentista, que estava marcado para amanhã, vai encaixar outro paciente. Nesse exato momento um espermatozóide ganha uma corrida e um menino de nome João Francisco das Chagas vai nascer, vai virar tenente da polícia e dar um tiro num outro menino que nem nasceu ainda, pensando que ele é bandido. Agora mesmo um inseto deixou escapar um pólen de pé de maracujá a dez metros da planta. Essa semente vai germinar e dela vai sair um maracujá que será vendido na feira aos berros pela dona Júlia. Agora mesmo uma menina encontra um rapaz no ônibus e imagina ele como sendo dela, o homem ais perfeito dentre todos, ao mesmo tempo em que o cobrador desse mesmo ônibus não vê a hora de terminar sua última viagem e chegar em casa, porque hoje, de acordo com a tabela da mulher, eles podem transar à vontade. O ônibus onde isso tudo acontece se encontra passando em frente a uma casa de uma vidente, onde uma mulher bem ornada faz revelações bombásticas sobre o marido de sua cliente, morto há anos. Um homem ri de alguma piada maldosa. A menina vê o pai de jeito estranho. Um padeiro espirra na fornada. A caneta falha. Nesse exato momento um homem em meio a uma reunião sente uma dor tão impossivelmente poética, que nada nesse planeta vai convencer seus colegas da existência de tal coisa, caso ele viesse a quebrar a sala ou pular da janela ou chorar, copiosamente.